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Leandro Gomes de Barros

Data Nasc.:
19/11/1865
Data de falecimento.:
04/03/1918
Ocupação:
Religioso e político brasileiro
Formação:
Ciências Jurídicas e Sociais

Leandro Gomes de Barros

Artigo disponível em: ENG ESP

Última atualização: 01/09/2020

Por: Lúcia Gaspar - Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco

O poeta popular Leandro Gomes de Barros, nasceu na Fazenda Melancia, no município de Pombal, Paraíba, no dia 19 de novembro de 1865.

No início da década de 1880, mudou-se para a vila de Teixeira, um dos berços da literatura popular do Nordeste brasileiro, onde teve como tutor o padre Vicente Xavier de Farias, passando a conviver com violeiros e cantadores como Ignácio da Catingueira, Romano da Mãe d’Água, Bernardo Nogueira, Hugolino do Sabugi, Nicandro Nunes da Costa.

 

Deixando a Paraíba, viajou para Pernambuco fixando residência primeiro em Vitória de Santo Antão, depois no município de Jaboatão, onde morou até 1906 e casou com Venustiniana Eulália de Sousa, com quem teve quatro filhos: Rachel, Erodildes (Didi), Julieta e Esaú Eloy.

 

Autor de centenas de folhetos de cordel, que começou a publicar no final da década de 1880 e início dos anos 1890, Leandro Gomes de Barros foi um dos poucos poetas populares a ter nessa atividade sua principal fonte de renda durante toda a vida.

 

A partir de 1907, mudou-se para o Recife, residindo em diversos endereços, entre os quais o da Rua Motocolombó, n.87, no bairro de Afogados.

 

Nessa época, tornou-se proprietário de uma pequena gráfica, aTypografia Perseverança, criada única e exclusivamente para imprimir e distribuir seus folhetos. A dificuldade de impressão era grande, por isso os poetas-editores tinham que usar a criatividade: aproveitavam as horas ociosas das tipografias dos jornais ou pequenas oficinas gráficas para imprimir suas obras.

 

Leandro viajava muito para divulgar e vender seus trabalhos. Conviveu com homens cultos e é provável que tenha lido poetas eruditos como Castro Alves, Gonçalves Dias, Camões, além de ser um bom conhecedor da Bíblia, fruto talvez do tempo em que passou sob a tutela do padre Vicente Xavier de Farias, vigário e mestre-escola na vila de Teixeira.

 

Sintonizado com as coisas do seu tempo e muito curioso em relação as do passado, não se limitou a reaproveitar os temas correntes como a gesta do boi (Boi Misterioso), o cangaço ou temas europeus (Carlos Magno e o Rei Arthur), criando uma poesia bem brasileira. Sua obra abrange todos os gêneros e modalidades da literatura popular: peleja, romance, gracejo, sátira e crítica social. Os temas mais recorrentes na sua obra são o folheto-reportagem, com assuntos do cotidiano, desastres, guerra, política, cangaço; a sátira, principalmente ao casamento, às religiões católica e protestante, à cobrança de impostos, aos políticos e aos charlatões, além do romanceiro, contos de fadas e lendas. São temas freqüentes na sua poesia a mulher, a sogra e a cachaça. Criou também alguns tipos marcantes como o Cancão de Fogo, que incorpora traços autobiográficos e João Leso.

 

Um dos pioneiros da poesia popular brasileira, Leandro Gomes de Barros é autor de centenas de folhetos de cordel, alguns com grande aceitação popular, como O Cachorro dos Mortos; Branca de Neve e o Soldado Guerreiro; Batalha de Oliveiros com Ferrabrás; Peleja de Riachão com o Diabo; História da Donzela Teodora; Juvenal e o Dragão; Antônio Silvino; o Rei dos Cangaceiros e O Boi Misterioso.

 

Sua obra foi estudada por diversos pesquisadores, tendo, inclusive, influenciado alguns escritores renomados, como Ariano Suassuna que afirmou ter se inspirado em dois de seus folhetos: O enterro do cachorro e A história do cavalo que defecava dinheiro, para escrever O auto da Compadecida.

 

 

Sobre ele escreveu o folclorista Luiz da Câmara Cascudo, que o conheceu em João Pessoa:
 

[...] Viveu exclusivamente de escrever versos populares inventando desafios entre cantadores, arquitetando romances, narrando as aventuras de Antônio Silvino, comentando fatos, fazendo sátiras. Fecundo e sempre novo, original e espirituoso, é o responsável por 80% da glória dos cantadores atuais. Publicou cerca de mil folhetos, tirando deles dez mil edições. Esse inesgotável manancial correu ininterrupto enquanto Leandro viveu. É ainda o mais lido dos escritores populares. Escreveu para sertanejos e matutos, cantadores, cangaceiros, almocreves, comboieiro, feirantes e vaqueiros. É lido nas feiras, nas fazendas, sob as oiticicas nas horas do "rancho", no oitão das casas pobres, soletrado com amor e admirado com fanatismo. Seus romances, histórias românticas em versos, são decoradas pelos cantadores. Assim Alonso e Marina,O Boi Misterioso, João da Cruz, Rosa e Lino de Alencar, O Príncipe e a Fada, o satírico Cancão de Fogo, espécie de Palavras Cínicas, de Forjaz de Sampaio, a Órfã Abandonada, etc constituem literatura indispensável para os olhos sertanejos do Nordeste. Não sei se ele chegou a medir-se com algum cantador. Conheci-o na capital paraibana. Baixo, grosso, de olhos claros, o bigodão espesso, cabeça redonda, meio corcovado, risonho, contador de anedotas, tendo a fala cantada e lenta do nortista, parecia mais um fazendeiro que um poeta, pleno de alegria, de graça e de oportunidade.

 

Leandro Gomes de Barros morreu no dia 4 de março de 1918, no Recife.

 

Após sua morte, em 1921, seus direitos autorais foram vendidos pela viúva, para o poeta João Martins de Atayde, que passou a publicá-los omitindo nas capas o nome do autor e alterando, em alguns deles, o acróstico na estrofe final de muitos folhetos, numa tentativa de confundir a identificação da obra.

 

Atualmente, há vários pesquisadores do tema que buscam restituir a autoria dele e de outros poetas populares.

 

 

Recife, 29 de maio de 2008.
Atualizado em 28 de agosto de 2009.

Fontes consultadas

AMORIM, Maria Alice. Clássico subestimado no cenário da poesia. Diario de Pernambuco,  Recife, 30 abr. 2008. Especial: Nobreza o Cordel, p. 4-5.
 
BIOGRAFIA à moda da Casa. Disponível em: <http://www.casaruibarbosa.gov.br/SubsiteCordel/leandro_biografia.html>. Acesso em: 19 de maio de 2008.
 
CÂMARA CASCUDO, Luis da. Vaqueiros e cantadores: folclore poético do sertão de Pernambuco, Paraiba, Rio Grande do Norte e Ceara. Porto Alegre : Globo, 1939. 274p.
 
LEANDRO Gomes de Barros, 1865-1918. Disponível em: <goo.gl/4nUc6T>. Acesso em: 16 maio 2008.
 
NUNES FILHO, Pedro. Guerreiro togado: fatos históricos de Alagoa do Monteiro. Recife: UFPE, Ed. Universitária da UFPE,  1997. 572p.
 
RENATO L. Rei da poesia do sertão. Diario de Pernambuco,  Recife, 30 abr. 2008. Especial: Nobreza o Cordel, p. 2.
 
VIANA, Arievaldo. 140 anos de nascimento de Leandro Gomes de Barros, o rei da Literatura de Cordel. Disponível em: <http://www.camarabrasileira.com/cordel77.htm>. Acesso em: 16 maio 2008. [xilogravura de Klévisson Viana disponibiizada neste texto]
 
Leandro foi gênio em todos os estilos: entrevista. Diario de Pernambuco, Recife, 30 abr. 2008. Especial: Nobreza o Cordel, p. 3.

 

 

 

Como citar este texto

Fonte: GASPAR, Lúcia. Leandro Gomes de Barros. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar>. Acesso em: dia  mês ano. Ex: 6 ago. 2009.