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Dança do Vaqueiro de Marajó, Pará

A dança interpretada apenas por homens, sem a presença feminina, é inspirada nos movimentos corporais do vaqueiro, imitando sua cavalgada, por meio do galope, ao tentar laçar o boi com uma corda de sisal.

Dança do Vaqueiro de Marajó, Pará

Última atualização: 18/10/2021

Por: Lúcia Gaspar - Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco - Especialista em Documentação Científica

Escuta povo o meu cantá. Eh, boi!
Do Marajó, o seu dançá. Eh, boi!
E uma coisa eu vô falá. Eh, boi!
Queiram todos escutá.


Laceia, laceia, o boi do Marajó (estribilho)
(Trecho de letra da música, Dança do vaqueiro de Marajó)

A dança do vaqueiro de Marajó – a maior ilha fluviomarinha do mundo, localizada no estado do Pará – foi criada por escravos africanos, provavelmente influenciados pelos trabalhos dos homens do campo, na sua organização coletiva de cavalgar e de laçar o gado. É mantida, há muitos anos, na cidade de Santa Cruz do Arari.

A dança interpretada apenas por homens, sem a presença feminina, é inspirada nos movimentos corporais do vaqueiro, imitando sua cavalgada, por meio do galope, ao tentar laçar o boi com uma corda de sisal. Na cultura marajoara, o trabalho doméstico é realizado pelas mulheres e são os vaqueiros que desenvolvem atividades fora de casa.

Os dançarinos, sempre em número par, fazem uma série de movimentos, cuja coreografia representa a estética do vaqueiro marajoara, expressando também a virilidade do homem da região, que trabalha nos campos e nas fazendas. A dança é acompanhada pelos sons produzidos por tamancos com solados de madeira (tipo português) usados pelos participantes e laços de corda de sisal.

A indumentária é composta por calça branca, preta ou de mescla azul, arregaçada até o meio da perna; camisa de manga comprida, bordada com motivos, marajoaras (às vezes se apresentando com o dorso nu); capa vermelha ou azul sobre os ombros (destinada a proteger o vaqueiro da umidade noturna); chapéu de palha de arumã ou carnaúba, com abas largas; laço de sisal; chicote de couro cru, preso do lado direito da calça, além dos tamancos de madeira, que fazem barulho semelhante aos passos dos bois, acompanhando o ritmo da música.

São usados apenas instrumentos tradicionais de pau, corda e sopro, como carimbós, maracás, pandeiros, ganzás, banjos, flautas – instrumentos também utilizados em outras danças folclóricas amazônicas – não sendo permitido o uso de instrumentos eletrônicos.

Comum nos municípios da região, a dança do vaqueiro de Marajó é exibida até hoje por diversos grupos folclóricos das cidades de Belém e da Ilha de Marajó, em manifestações populares, principalmente no período das festas juninas ou em eventos turísticos.

Transcreve-se a seguir, a letra da música cantada pelos participantes na dança do vaqueiro de Marajó (MANZOLLI, 1991, p. 87):

Vem meu vaqueiro, de novo contá
Pra esse povo tão alegre do lugá
Vem meu vaqueiro, com muita emoção
Contá sua glória com amor no coração


Estribilho

Laceia, laceia, o boi do Marajó (4 vezes)

Escuta povo o meu cantá. Eh, boi!
Do Marajó, o seu dançá. Eh, boi!
E uma coisa eu vô falá. Eh, boi!
Queiram todos escutá


Laceia, laceia, o boi do Marajó (3 vezes)

Sô dançadô do meu rincão. Eh, boi!
Chego a brigá nesta canção. Eh, boi!
Pra falá desta paixão. Eh, boi!
Pra contá essa aflição


Laceia, laceia, o boi do Marajó (3 vezes)

Tive mãe e tive pai. Eh, boi!
De chorá, solto o meu ai. Eh, boi!
A saudade já se vai. Eh, boi!
Coração, calai, calai.


Laceia, laceia, o boi do Marajó (3 vezes)

Quando vejo alguém dizê. Eh, boi!
Bênção, pai, a vosmicê. Eh, boi!
Sinto a alma entristecê. Eh, boi!
Cadê o choro, ó Deus, cadê?

Laceia, laceia, o boi do Marajó (3 vezes)

E quem pai ainda tivé. Eh, boi!
Deve honrar ou dar-lhe fé. Eh, boi!
Veja Deus, tu por quem é. Eh, boi!
Vê, mamãe que santa é.

Laceia, laceia, o boi do Marajó (3 vezes)
Marajó!


Pausa

Minha terra tão guarida. Eh, boi!
Te louvando pela vida. Eh, boi!
Venho dar a despedida. Eh, boi!
Minha gente tão querida.

Laceia, laceia, o boi do Marajó (várias vezes)

 

 

Recife, 20 de julho de 2012.

Fontes consultadas

FIGUEIREDO, Napoleão. O vaqueiro da ilha de Marajó (estado do Pará). Recife: Fundaj, Instituto de Pesquisas Sociais, Centro de Estudos Folclóricos, 1988. (Folclore, 192-193).

MANZOLLI, Maria Aparecida de Araújo. Dança do vaqueiro do Marajó. Anuário do Folclore, Olímpia, SP, ano 18, n. 21, p. 87-88, 1991. 

OLIVEIRA, Ana Maria Azevedo de. Seguindo a trilha dos vaqueiros: uma dança sempre presente. Tucunduba, Belém, n.2, 2011. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2012.

SOARES, Lúcio de Castro. Vaqueiro de Marajó. In: TIPOS e aspectos do Brasil. 10. ed. atual. e ampl. Rio de Janeiro: IBGE, 1975. p. 65-66. 

VAQUEIRO do Marajó, Viajando pelo Brasil, Pará. Disponível em: . Acesso em: 18 jul. 2012.

Como citar este texto

GASPAR, Lúcia. Dança do vaqueiro de Marajó, Pará. In: Pesquisa Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2012. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/danca-do-vaqueiro-de-marajo-para/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2020.)