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Várzea (Bairro, Recife)

Bairro da Região Metropolitana do Recife.
 

Várzea (Bairro, Recife)

Última atualização: 11/08/2021

Por: Leonardo Dantas - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco - Historiador , Bacharel em Direito

Dentre os recantos pitorescos do Recife, a Várzea ainda se conserva com o mesmo charme que foi sua marca no passado. A Várzea foi sede de uma pequena povoação do século XVI, originária do Engenho Santo Antônio ali fundado nos primeiros anos da colonização por Diogo Gonçalves, em torno do qual gravitavam 16 outras fábricas de açúcar que juntas formavam a chamada Várzea do Capibaribe.

 

A sua igreja matriz, dedicada à Nossa Senhora do Rosário, abrigou a primeira freguesia suburbana do atual município do Recife, conforme assinala o Livro que dá razão do Estado do Brasil (1612). Na Várzea, segundo o relatório do holandês Adriaen Verdonck (1630), estava "a melhor e mais bela moradia dentre os melhores lugares de Pernambuco e de onde vem o melhor e a maior parte do açúcar".

 

A igreja matriz passou por reformas, entre 1868 e 1872, nada mais restando da primitiva Capela de Nossa Senhora do Rosário.

 

No final da primeira metade do século XVII, os três principais engenhos da Várzea - São João, do Meio e Santo Antônio - tinham por proprietário João Fernandes Vieira, principal chefe da Insurreição Pernambucana (1645-1654). Foi na Várzea que se estabeleceu, a partir de 1645, o novo Governo de Pernambuco, tendo ali funcionado a Santa Casa de Misericórdia de Olinda, o Hospital Militar e o Senado da Câmara de Olinda. No dizer de F. A. Pereira da Costa, "ali funcionou, enfim, toda a governança e o mecanismo oficial da Capitania de Pernambuco; a povoação da Várzea foi, por assim dizer, a sua capital durante o período da Guerra Holandesa, que se estendeu de 1645 a 1654".

 

Em 1754, essa povoação registrava uma população de 220 habitantes livres.

 

Na igreja matriz uma placa assinala que ali foi sepultado, em 1648, "o bravo Dom Antônio Filipe Camarão, governador dos índios que, com seus arcos e flechas, defendeu a fé e a pátria contra o batavo invasor". Em sua sacristia, escavações recentes desenvolvidas sob a orientação do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Pernambuco, encontraram o cemitério das vítimas das duas batalhas dos Montes Guararapes (1648 e 1649).

 

Na Praça da Matriz, o caminhante encontrará duas igrejas - a de Nossa Senhora do Rosário, ao centro, e a Igreja de Nossa Senhora do Livramento, que pertencia a uma irmandade de homens de escravos. Apesar do belo frontispício, que conserva as suas características primitivas, esta igreja encontra-se abandonada e em ruínas. No prédio de dois pavimentos, ao lado, funcionou o Seminário da Várzea.

 

Vários casarões chamam a atenção para o bucolismo da Várzea dos nossos dias, salientando-se dentre eles o que serve de sede ao Educandário Magalhães Bastos, no final da Rua Francisco de Lacerda. Construído em 1897 por Napoleão Duarte, o prédio destinava-se, segundo placa comemorativa, ao "Asylo da Infância Desvalida, de ambos os sexos, fundado e dictado pelo Com. Antônio José de Magalhães Bastos, comerciante que foi nesta cidade".

 

Ainda nas terras do Engenho São João pode-se vislumbrar, no alto de uma colina, às margens do açude e cercada por jardins, a Casa dos Brennand, um dos mais importantes exemplares da arquitetura em ferro no Brasil.

 

Trata-se de uma casa em dois pavimentos, fabricada na Bélgica e adquirida nos Estados Unidos, em 1897, aqui montada em 1902. Sua arquitetura é da área francesa do Vieux Quartier de Nova Orleans. Uma escada em perfis de ferro une as duas alas da casa, que possui um pátio interno separando os dois corpos laterais, cercadas de varandas e cobertas por telhas francesas. Caminhando por essas ruas, algumas sem calçamento, por entre sítios plantados com as mais diferentes fruteiras, quintais separados por cercas vivas de papoulas coloridas, tudo faz lembrar a imagem pintada com as cores da lembrança do poeta Joaquim Cardozo:

 

       A Várzea tem cajazeiras...
       Cada cajazeira um ninho
       Que entre o verde e o azul oscila;
       Em redes de ramos verdes
       Me estendo como um caminho,
       Me espreguiço dessa várzea,
       E me embalo desse ninho.

 

 

 

Recife, 29 de junho de 2010.

 

* Este texto faz parte do projeto Interagindo com a História do Seu Bairro, uma parceria da Fundação Joaquim Nabuco com o Programa Manuel Bandeira de Formação de Leitores.

 

Como citar este texto

SILVA, Leonardo Dantas. Várzea (Bairro, Recife). In: Pesquisa Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2010. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/varzea-bairro-recife/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2021.)