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Medicina e o poder de cura no Recife do início do século XX, A

Na virada do século XX, considerava-se o Recife uma das cidades mais insalubres do país. O médico Octávio de Freitas destacava, em 1904, a preocupante situação na área da saúde. Na busca da cura para as doenças epidêmicas e demais moléstias que se disseminavam pela cidade, a população, independentemente da camada social, conforme podemos constatar em relatos da época, recorria aos mais diferentes saberes, métodos e ofícios.

Medicina e o poder de cura no Recife do início do século XX, A

Última atualização: 02/08/2022

Por: Sylvia Costa Couceiro - Historiadora, Doutora em História, Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Na virada do século XX, considerava-se o Recife uma das cidades mais insalubres do país. O médico Octávio de Freitas destacava, em 1904, a preocupante situação na área da saúde: “Todo aquele que, interessado pelos assuntos de higiene, fizer um estudo comparativo do coeficiente geral da mortalidade nas diversas capitais dos estados brasileiros, não deixará de ficar impressionado pelo excessivo dízimo mortuário do nosso Recife que ocupa um dos mais elevados lugares da escala” (FREITAS, 1904, p. 13). Periodicamente, epidemias alastravam-se pela cidade, atingindo tanto os sobrados altos e elegantes casarões, onde residiam as famílias abastadas no bairro de Santo Antônio e Boa Vista, quanto os mocambos de Afogados ou da Encruzilhada, onde habitavam os trabalhadores e grupos excluídos.

 

Na busca da cura para as doenças epidêmicas e demais moléstias que se disseminavam pela cidade, a população, independentemente da camada social, conforme podemos constatar em relatos da época, recorria aos mais diferentes saberes, métodos e ofícios. Gonçalves Fernandes, médico que na década de 1930 escreveu o livro Xangôs do Nordeste, conta o caso de um rico português que, gravemente doente, procurou o pai de santo Adão, considerado por Fernandes o mais respeitado babalorixá do Recife na época:

 

Um português, grande comerciante de calçados na cidade, o Sr. J. A. F., desesperançado de obter a cura para sua doença, se deixou levar (...) à presença de Adão. Não consegui saber a que práticas ele se submeteu, mas sei que abandonou o tratamento [médico] após a primeira visita ao terreiro (FERNANDES, 1937, p. 65).

 

 

Como se pode observar, além dos farmacêuticos, boticários, e dos médicos, a maioria deles formados nas faculdades de Salvador ou Rio de Janeiro, os habitantes do Recife também buscavam outros espaços e meios de cura. Os práticos, que detinham o conhecimento das ervas e drogas, a partir da tradição popular, os pais de santo ligados aos cultos afro, e os chamados “curandeiros”, que propagavam seus poderes de sanar os males do corpo e da mente, através de diferentes habilidades e processos, eram muito populares na época.

 

A partir do início do século XX, quando a Medicina começou a se constituir campo de saber científico, baseada em técnicas sistemáticas, intensificou-se na cidade um confronto: de um lado, a Medicina, que se oficializava; do outro, as práticas de cura tradicionais, fruto das raízes culturais de diferentes etnias, originárias da África e dos grupos indígenas nativos. Em meio aos surtos epidêmicos e à mortalidade crescente que provocavam, desenrolou-se, no Recife, uma verdadeira disputa pelo poder de cura sobre os corpos e as mentes da população. Quem deveria estar autorizado a tratar, cuidar e medicar as pessoas? Quem poderia determinar as medidas de combate às enfermidades no ambiente urbano?  

 

Para entender esse processo, pode-se tomar como ponto de partida as obras do médico Octávio de Freitas. Referência no meio médico da cidade, Freitas era piauiense de nascimento, mas passou parte da sua infância em Pernambuco, período em que seu pai foi nomeado para administrar a província. Formado pela Escola de Medicina do Rio de Janeiro, Freitas decidiu voltar para o Recife em 1893, para iniciar sua vida profissional.

 

Dr. Freitas assumiu diversos cargos públicos na área da saúde na cidade, dentre eles o de presidente da Liga Pernambucana contra a Tuberculose, diretor de Higiene Pública, do Instituto Pasteur, e do Instituto Vacinogênico, foi médico do Hospital Pedro II, tendo participado ativamente dos debates científicos travados na cidade e no país, a partir da virada do século XIX para o XX.

 

Além das funções públicas, Freitas escreveu cerca de vinte livros, a exemplo: Medicina e costumes do Recife, Ideias e conceitos e Os nossos médicos e a nossa Medicina, e centenas de artigos científicos. Nestas obras, além de tratar de temas relativos à pesquisa científica, Dr. Octávio de Freitas discorria sobre diversos temas: defendia o monopólio das práticas de cura pelos médicos formados, estabelecia regras de conduta para a atividade e desqualificava o saber popular e suas práticas de cura, denominando quem utilizava esses conhecimentos de “charlatães” e “enganadores”. Suas ideias refletiam a preocupação em torno da construção do “ser médico” no Recife do início do século XX, auxiliando na compreensão desse momento de conflito entre saberes diversos: de um lado, as ideias europeias, fruto do cientificismo Iluminista; do outro, as noções de origens culturais diversas que se encontraram no Novo Mundo, perpassadas por elementos de religiosidade e magia. Os escritos do médico, suas palestras, aulas e influência social foram fundamentais nesse processo de consolidação da Medicina, contribuindo para reforçar a ideia de que ela seria a única autorizada a atender os doentes e curar as moléstias que assolavam na época.

 

No livro Medicina e costumes do Recife, Freitas mostra que a autoridade do médico procurava se firmar como hegemônica, desde o século XIX. Nesse processo, além do discurso científico, uma série de simbolismos era utilizada para consolidar a competência dos doutores, como os “estranhos” equipamentos e aparelhos utilizados nas consultas e exames, além das vestimentas que usavam:

 

O chapéu de feltro de cano alto e luzidio era indispensável a todo médico que se prezava e prezava a sua clientela. A sobrecasaca, o fraque, o paletó preto e a calça listrada faziam parte integrante do seu vestuário cotidiano. Quem não andasse assim arriscava-se a não conseguir um único cliente, porque faltava, então, a devida compostura para exercer tão nobre profissão (FREITAS, 1943, p. 90).

 

Nesse período, os medicamentos prescritos pelos médicos eram manipulados por boticários e feitos à base de substâncias, como iodo, mercúrio, ácido bórico, quinino, arsênio, óleos variados, ervas, sementes, raízes e vinhos importados. Em casa, preparavam-se os chás de sabugo, de pega-pinto, de mastruço, de cidreira, além dos unguentos de plantas variadas, cataplasmas de alho, clisteres diversos, purgantes contra vermes e lombrigas, e os caldos, canjas e papas, que também auxiliavam na recuperação dos doentes. Muito desse conhecimento fora herdado da cultura indígena ou adquirido, a partir do contato com os africanos.

 

No início do século XX, a fabricação de remédios em laboratórios e a comercialização dos produtos já prontos pelas farmácias foram, aos poucos, transformando o papel das boticas e farmácias. De produtores, esses estabelecimentos passam a ser simples distribuidores de remédios, como destacou Freitas:

 

O mercado de drogas está dominado por estes preparados de laboratórios (...). Os médicos de antanho, confiantes nos boticários que conheciam proficientemente a arte de formular, restringiam as suas indicações médicas a remédios preparados de acordo com as receitas por eles formuladas. E, neste particular, a barateza das receitas era quase de escandalizar os vendedores (...) de remédios laboratorizados (FREITAS, 1943, p. 127-128).

 

 

Nos jornais da década de 1920, encontravam-se anúncios de uma infinidade de medicamentos produzidos por esses laboratórios. É interessante perceber que o mesmo remédio era indicado para a cura de diversas doenças, que iam de irritações superficiais na pele ou indisposições, até problemas em órgãos e sistemas vitais. A propaganda do Cactusgeno, por exemplo, anunciava que o medicamento agia “nas aflições, faltas de ar, pés inchados, cansaços, palpitações, urinas escuras, dores nos rins, nefrites, pontadas, chiados no peito, nevralgias cardiorrenais, bronquite asmática” e várias outras moléstias do coração, rins e pulmões (DIARIO DE PERNAMBUCO, 1923, p. 8).

 

Segundo Dr. Freitas, nas primeiras décadas do século XX, a Medicina no Recife vai, aos poucos, incorporando as descobertas mais recentes, conseguindo prestígio e destaque, como ciência responsável pela saúde e cura da população. A fundação da Faculdade de Medicina do Recife, em 1920, a formação de médicos tecnicamente instruídos, os modernos métodos de diagnóstico, como análises químicas e microscópicas, o uso de aparelhos elétricos, para exames de doenças nervosas, e as famosas máquinas de raios X contribuíram para a institucionalização desse campo de saber na cidade.

 

Nesse período, no Recife, já se realizavam, com sucesso, cirurgias para a retirada de cálculos vesicais, tumores em diversas regiões do corpo, operações ginecológicas, para a remoção de fibromas, dentre outras. Em 1928, os periódicos anunciavam a realização na cidade da primeira operação cesariana bem-sucedida, depois de três tentativas sem êxito feitas em épocas anteriores. Realizada no Hospital Pedro II, segundo notícia do Almanach de Pernambuco, pelos doutores Alexandre Selva e Jorge Bittencourt, a cirurgia salvou a vida de Enésia Silva, que deu à luz o menino Alexandre Jorge. O governador Estácio Coimbra e sua esposa foram os padrinhos da criança (ALMANACH DE PERNAMBUCO, 1928, p. 22).

 

Em meados da década de 1920, o Almanach de Pernambuco para 1926 anunciava o nome e endereço de 105 médicos estabelecidos na cidade, com a indicação do endereço do consultório. Este número seguramente não representava o total dos profissionais atuantes no Recife, uma vez que boa parte deles trabalhava, atendendo diretamente, na residência dos pacientes, os conhecidos médicos de família, enquanto outros preferiam não optar por esse tipo de publicidade.

 

Um dos médicos, cujo nome constava da lista do Almanach, nos anos 1920, e que constantemente aparecia nos anúncios dos jornais, era o Dr. João Costa. As propagandas divulgavam que ele atendia doentes com problemas nas vias urinárias, sífilis, moléstias de pele, doenças de senhoras, enfermidades infantis, realizando também partos, segundo anúncios do Jornal Pequeno, de 1921. Seu consultório, localizado na Rua Larga do Rosário, dispunha, de acordo com o periódico, de “gabinete médico de 1ª ordem, com instalações e aparelhos moderníssimos para toda sorte de aplicações: Raios-X – Eletricidade – Análises Químicas – Exames Microscópicos – Raios Ultravioleta – Ozona – Banhos de Luz” (JORNAL PEQUENO, 1921, p. 10).

 

Importante destacar que, apesar da luta do Dr. Octávio de Freitas pela oficialização da Medicina, da especialização dos médicos, dos aparelhos modernos e remédios que prometiam curas revolucionárias e da propaganda usada no convencimento dos clientes, parte da população do Recife continuava a consumir xaropes, chás de ervas e beberagens caseiras, não deixando de, frequentemente, fazer visitinhas a um curandeiro ou a uma sessão de xangô. O costume de frequentar os consultórios médicos da elegante Rua Nova e, ao mesmo tempo, as casas de catimbó de Beberibe e da Encruzilhada; de procurar a cura com médicos que utilizavam aparelhos modernos, como os de raios-X, e, ao mesmo tempo, tomar os chás de ervas e garrafadas indicadas pelos chamados curandeiros, nos mostram que os referenciais culturais da população do Recife eram múltiplos, fruto de tradições diversas, que mesclavam elementos e símbolos herdados da Europa, com os conhecimentos transmitidos pelos grupos indígenas e africanos.

 

 

 

 

Recife, julho de 2020.

Fontes consultadas

ALMANACH DE PERNAMBUCO. 1929. Recife: Julio Pires Ferreira, n. 31, 1928.

 

DIARIO DE PERNAMBUCO. Recife: [s. n.], 10 ago. 1923.

 

FERNANDES, Gonçalves. Xangôs do Nordeste. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937.

 

FREITAS, Octávio de. Os nossos médicos e a nossa medicina. Recife: Typ. D’A Província, 1904.

 

FREITAS, Octávio de. Medicina e costumes do Recife antigo. Recife: Imprensa Industrial, 1943.

 

JORNAL PEQUENO. Recife: [s. n.], 6 out. 1921, p. 10.

Como citar este texto

COUCEIRO, Sylvia Costa . Medicina e o poder de cura no Recife do início do século xx, A . In: PESQUISA Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2020. Disponível em:https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/medicina-e-o-poder-de-cura-no-recife-do-inicio-do-seculo-xx/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2020.)