Luís Jardim soube unir nas páginas de suas memórias [Meu Pequeno Mundo] o gosto do desenho, o pendor das letras e o talento teatral de arremedar os companheiros.
Josué Montello
Reconhecido por muitos intelectuais como uma figura de destaque da literatura brasileira e, não raro, como desenhista, o pernambucano Luís Inácio de Miranda Jardim, filho de Manuel Antônio de Azevedo Jardim e de Angélica Aurora de Miranda Jardim nasceu na cidade de Garanhuns, Pernambuco, no dia 8 de dezembro de 1901.
Seus primeiros estudos foram realizados em sua cidade natal, na escola particular chamada Grêmio Literário Raul Pompéia. Aos 13 anos, saiu da escola e não mais voltou por ser uma criança muito doente: teve febre paratífica e começo de beribéri, entre outras enfermidades.
Foi também na sua infância, a partir dos nove anos, que Luís Jardim começou a desenhar, incentivado pelos tios Argemiro e Souza. A princípio, seus desenhos eram em preto, depois seu pai comprou uma caixa de lápis de cor e Jardim passou a colori-los.
A sua ida para o Recife está associada à célebre hecatombe de Garanhuns* quando, em 15 de janeiro de 1917, toda a sua família foi assassinada. Em 1918, mudou-se para o Recife porque se dizia, em Garanhuns, que até as crianças das famílias Miranda e Jardim estariam ameaçadas de morte.
Chegando ao Recife, se encantou com a beleza da cidade: “dois rios a serviço de uma cidade, defronte o oceano. Aquelas pontes, a cidade plana [...]. A Rua da Aurora era um primor [...] o cais [...], a praia de Boa Viagem, mansa, bonita [...]”. Entretanto, achava o Recife uma cidade “descuidada e o recifense sem maior interesse, ou sem grande entusiasmo pela sua terra [...], os prefeitos nunca tiraram partido do encanto natural da cidade.”
Na capital de Pernambuco, Luís Jardim trabalhou na casa do Sr. Elpídio Gondim fazendo serviços gerais. Foi nessa casa que Jardim conheceu um professor de inglês que o aconselhou a retomar os estudos da gramática da língua portuguesa, requisito básico para o aprendizado do inglês, que ele tanto desejava. Seguiu o conselho dado e, depois de muito empenho e sacrifício, conseguiu não só aprender a ler, mas também a falar a língua inglesa. Paralelo a tudo isso, Luís Jardim lia todos os livros que chegavam a ele e continuava desenhando.
Na Revista do Norte, periódico dirigido por José Maria de Albuquerque Melo, e no jornal A Província, Luís Jardim teve seus primeiros desenhos publicados. Dos muitos livros que ilustrou tem destaque o Guia Prático Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre.
Na época em que viveu no Recife freqüentou o grupo da Esquina Lafayette, do qual faziam parte Osório Borba e Joaquim Cardozo.
Foi para o Rio de Janeiro por influência de Gilberto Freyre que o incentivou a fazer uma exposição dos seus trabalhos em aquarela e de lá não mais saiu. Depois, se inscreveu no Concurso Literário Infantil do Ministério da Educação (1937) onde recebeu os dois primeiros lugares com histórias do folclore nacional O Boi Aruá – livro que Monteiro Lobato considerou “o mais belo do gênero escrito no Brasil” –, e O Tatu e o Macaco. Em 1940, foram publicados com ilustrações e, em 1942, teve sua impressão em inglês por uma editora de Nova York. No concurso de contos para o Prêmio Humberto de Campos, em 1938, derrotou o também escritor Graciliano Ramos – que concorria com a primeira versão de Sagarana – com seu livro de contos Maria Perigosa e, com esse prêmio, conquistou o Rio de Janeiro.
Por ser um escritor autodidata a partir de sua vinda para o Recife, e pelo sucesso dessas conquistas em concursos, Luís Jardim, já em idade madura, aconselhou, em suas palestras: “meninos e meninas [...] aprende-se [também] sem professor. Os professores mudos são os livros, de modo que vocês nunca deixem o livro de lado, não. Ele é que nos prepara para a vida, o que seremos depois, a significação do que temos e tudo mais [...]. os livros podem fazer isso por qualquer um.”
Além de escritor, desenhista, pintor, Luís Jardim foi tradutor do poema hindu Nalá e Damayanti e da peça teatral de Arthur Müller, A Morte do Caixeiro Viajante representada posteriormente pela Companhia Jaime Costa.
A Academia Brasileira de Letras premiou Luís Jardim nos anos de 1958 – Prêmio Cláudio de Souza, categoria teatro – com a peça Isabel do Sertão e, em 1968, com o Prêmio Monteiro Lobato de Literatura Infantil com As Proezas do Menino Jesus.
Em 1971, publicou Aventuras do Menino Chico de Assis e, em 1977, Façanhas do Cavalo Voador e Outras Façanhas do Cavalo Voador onde reúne figuras mitológicas, bichos, mata e coisas do Brasil.
Foi funcionário do Instituto do Açúcar e do Álcool, do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional, da Editora José Olympio além de redator de vários jornais do Rio de Janeiro e de outros estados.
Luís Jardim faleceu no Rio de Janeiro em 1º de janeiro de 1987.
Algumas publicações:
Maria Perigosa (contos, 1938)
As Confissões do meu tio Gonzaga (romance, 1949)
O meu pequeno mundo (1977)
O ajudante de mentiroso (1980)
Livros infanto-juvenil:
O Tatu e o macaco (1937)
O Boi Aruá (1937)
Proezas do Menino Jesus (1968)
Aventuras do menino Chico de Assis (1971)
Façanhas do Cavalo Voador (1978)
Novas Façanhas do Cavalo Voador (1978)
Peça Teatral:
Isabel do Sertão (em três atos) (1958)
Ilustrações em livros.
Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira.
Riacho Doce, Menino de Engenho e a maior parte dos livros de José Lins do Rego.
Olinda: 2º Guia Prático, Histórico e Sentimental de cidade brasileira, de Gilberto Freyre.
Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre.
Aparência do Rio de Janeiro: notícia histórica e descritiva da cidade, de Gastão Cruls.
Santa Catarina de Sena: sua ação e seu ambiente, de Carolina Nabuco (capa).
O Quinze, de Raquel de Queiroz.
Um Besouro Contra a Vidraça, de J. G. de Araújo Jorge (capa).
Quando vem baixando o crepúsculo..., de Olegário Mariano (capa).
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*Em 1917, o capitão Francisco Sales Vila Nova matou a tiros o deputado Júlio Brasileiro, representante do município na Assembléia Legislativa do Estado. O capitão Vila Nova, anteriormente, fora ameaçado e depois humilhado por Júlio e seus aliados por questões políticas e mal-entendidos o que culminou com o assassinato do capitão e de várias pessoas das famílias Miranda e Jardim a mando da viúva do deputado, Ana Duperron. “Crimes bárbaros foram cometidos, pessoas decapitadas, muitos dentro da cadeia, onde tinham sido colocados para escapar à vingança. Depois dos assassinatos cometidos pelos partidários do coronel Vila Nova, muitas pessoas envolvidas nesses crimes também foram mortas e durante muito tempo o município teve de conviver com a guerra provocada pelo gesto solitário de Sales Vila Nova.”
Recife, 21 de dezembro de 2010.
Fontes consultadas
DANTAS, Maria da Paz Ribeiro. Luís Jardim: ficção e vida. Recife: Fundarpe, 1989. (Biblioteca Comunitária de Pernambuco; ensaio, 1).
FONSECA, Yara Vidal. Centenário de nascimento de Murilo Mendes, Alcântara Machado, Luís Jardim. Rio de Janeiro; [s. n.], 2001.
FONSECA, Edson Nery da (Org.). Imagem e texto: homenagem ao pintor e escritor Luís Jardim. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1985. 54 p. Il. (Documentos; Fundaj; 27).
LUÍS Jardim [Ilustração neste texto]. Disponível em: <http://bienalagrestepe.com.br/a-bienal/homenageados/>. Acesso em: 6 jan. 2012.
PROFESSOR escreve livro sobre a hecatombe. Disponível em:<http://www.bluenet.com.br/correiosetecolinas/2004/08/14/cidade1.html>. Acesso em: 17 dez. 2010.
Como citar este texto
BARBOSA, Virgínia. Luís Jardim. In: PESQUISA Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2010. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/luis-jardim/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2020.)