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Covid-19 e o vírus que parou o mundo: o imaginário das pandemias no Ocidente

A doença causada pelo coronavírus foi declarada como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde, no dia 11 de março de 2020. Mais do que os números, entretanto, a doença se apresenta como um fato gerador de medo, por conta de vários outros fatores, entre eles: a forma como se espalha rapidamente pelo mundo, a variedade de sintomas e formas de contágio, a relativa desorientação dos cientistas que ainda não têm clareza sobre como combatê-la.

Covid-19 e o vírus que parou o mundo: o imaginário das pandemias no Ocidente

Artigo disponível em: ENG ESP

Última atualização: 22/03/2023

Por: Rosalira dos Santos Oliveira - Antropologa, Doutora em Ciência Sociais/Antropologia, Pesquisadora - Fundaj

Como sabemos, a doença causada pelo coronavírus foi declarada como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde, no dia 11 de março de 2020. À época, o mundo registrava cerca de 118 mil casos e 4.291 mortes. Passados mais de dois meses desta declaração, o total de casos ao redor do mundo subiu para 5.715.545 e o número de mortos chega a 352.908, de acordo com o site worldometer.1

 

Mais do que os números, entretanto, a doença se apresenta como um fato gerador de medo, por conta de vários outros fatores, entre eles: a forma como se espalha rapidamente pelo mundo, a variedade de sintomas e formas de contágio, a relativa desorientação dos cientistas que ainda não têm clareza sobre como combatê-la e multiplicação de imagens apresentada pela mídia. Tudo isso cria o cenário perfeito para a reativação dos velhos medos, que julgávamos pertencer a um passado distante, como ressalta este estudioso de temas medievais:

 

Se a Idade Média é diferença em relação ao que somos hoje, essa diferença se expressa tanto nas residualidades medievais, que são atualizadas no mundo atual, quanto em medos muito singulares, típicos e atinentes: medo do estrangeiro, medo do imigrante, medo da vacina, medo do comunismo, medo do antipatriótico, medo do isolamento social, dentre outros medos que fazem parte de um mundo em que a desigualdade estrutura nossas relações, as políticas governamentais e a distribuição dos benefícios (PEREIRA, 2020, grifo meu).

 

                                 

1Dados do dia 27/5/2020. https://www.worldometers.info/coronavirus/.

 

         1. E retorna o castigo divino...

 

Com a reativação dos medos, voltamos, também, às explicações que vimos seguindo ao longo deste texto. A primeira delas – o castigo pela transgressão da ordem divina – se apresenta agora em duas versões distintas.

 

Uma delas, que podemos chamar de religiosa, relaciona mais uma vez a epidemia ao final dos tempos. Temos novamente a leitura da pandemia como parte de um cenário apocalíptico que antecipa o final dos tempos. Nesta perspectiva, e tal como ocorreu em 1918, outros acontecimentos, como, por exemplo, a erupção do vulcão Krakatoa (Indonésia), passam a ser interpretados como “sinais” do fim dos tempos. Tais interpretações estão bem presentes nas mensagens dos religiosos fundamentalistas, que, claramente, atribuem a epidemia a um castigo de Deus pelos pecados dos homens – sejam estes o comunismo, a liberação da homossexualidade ou do aborto, as crianças transgêneros, as “sujeiras” da TV e do cinema, etc., como é o caso do pastor americano, para quem a doença é um “acerto de contas” de Deus para com o seu país:

Por que há um acerto de contas? Porque nós forçamos Deus para fora do nosso país e basicamente falamos para Ele: 'você não é bem-vindo.' É hora de acerto de contas, porque aprovamos leis que permitem tirar a vida de crianças e porque o casamento foi mudado para algo que nunca foi visto. Ambas as leis são o que Deus chama de abomináveis (PASTOR..., 2020b).

 

Mais ainda, se observarmos bem, veremos que esta percepção de fim dos tempos não se faz presente apenas entre os fundamentalistas das diferentes religiões. A frequência com que a pandemia é referida pela mídia, como um apocalipse, mostra o quanto esta ideia arquetípica se encontra arraigada, mesmo em análises que se querem objetivas.

 

              2. Uma outra leitura (igualmente) religiosa

 

A ideia do castigo, entretanto, não é a única leitura religiosa possível. Numa versão mais suave, temos como destaque, não um Deus que castiga, mas, antes, um Deus que usa pedagogicamente a doença como um chamado à reflexão e à correção por parte da humanidade. Como afirmam as falas abaixo:  

 

É mais fácil pensar em castigo de Deus, pois assim desvia da humanidade a responsabilidade de ações erradas. A menor das criaturas está causando uma crise mundial, fechando aeroportos e fronteiras e deixando as potências mundiais fragilizadas diante dos seus efeitos. Deus não manda o sofrimento, mas pode permitir, não para nos castigar, mas para nos corrigir como um Pai que ama seus filhos (DIAS, 2020, grifos meus).

 

Mas, a interpretação da pandemia como castigo divino tem ainda uma outra versão, que podemos chamar de secular. Nesta perspectiva, defendida não apenas por ecologistas, como pelo próprio Papa Francisco, a Natureza assume o lugar da personificação da ordem divina e estaria retaliando o homem pelos seus erros, disse o pontífice:

 

Não reagimos às catástrofes parciais. Quem é que fala agora nos incêndios na Austrália ou se lembra que há 18 meses era possível atravessar o Polo Norte de barco porque os glaciares tinham derretido? Quem é que agora fala das cheias? Não sei se esta é a vingança da natureza, mas certamente é uma resposta (UM TEMPO..., 2020).

 

Temos aqui novamente a perspectiva pedagógica da doença, através da qual a entidade que representa a ordem cósmica responde – para usar as palavras do Papa – às ações praticadas pelos homens. Também aqui a lista de possíveis “pecados” causadores deste mal é grande: o aquecimento global, o desmatamento, a redução do habitat dos animais selvagens, o seu consumo como alimento, etc.

 

         3. O tema do complô: ou todos contra todos no mundo globalizado

 

Assim, de acordo com o Governo americano, a culpa pelo surgimento do Coronavírus – causador da Covid-19 – seria dos chineses, que o teriam criado em laboratório como uma ação contra os Estados UPara encerrar este trajeto pelos medos do homem ocidental, temos a revivescência do tema do complô das sombras. E num mundo globalizado, diversificam-se também os representantes do mal.  

 

De acordo com a teoria sustentada pelo pastor, o vírus teria começado na China por causa do "Governo comunista sem Deus, que persegue cristãos" e realiza "abortos forçados. (...). Isso porque, na ótica do religioso, o país tem "ódio a Deus, ódio da Bíblia e ódio à justiça", o que representaria uma "rebelião espiritual" digna da justiça divina (PASTOR..., 2020a).

 

O mesmo discurso da culpabilidade dos chineses é, seguidas vezes, apresentado pelo presidente americano, que chegou a chamar o coronavírus de “kung flu” (ALENCAR, 2020) em uma referência racista à arte marcial chinesa. 2Enquanto isso, uma parcela da população chinesa acredita que o vírus teria sido criado pelo exército americano, para atacar a China (VEIGA, 2020). E, há ainda o magnata Bill Gates, que tem sido apontado como responsável pela criação do vírus, do qual já teria conseguido a patente e, também, fabricado a vacina. E por aí vai.

 

                                        

2 Da mesma forma, o presidente da Venezuela refere-se ao vírus como o “vírus colombiano” (NICOLÁS..., 2020).

 

O fato é que, diante do medo gerado por um perigo fora do nosso controle, como as pandemias, a crença na atuação de uma divindade ofendida pelo nosso comportamento ou de um agente do mal nos oferece uma defesa contra o risco maior de todos: a falta de sentido. É este o objetivo profundo das construções do imaginário sobre as pandemias: descobrir sua fonte para, então, identificar as armas capazes de derrotá-las. Ao representar as potências da morte e da destruição, a imaginação busca, na verdade, domesticá-las, reduzindo seus poderes e as atraindo para o campo em que se torna possível vencê-las, seja apaziguando o divino, seja identificando e combatendo os inimigos. E erguer uma defesa metafísica contra a morte e, sobretudo, contra a ausência de sentido é o verdadeiro papel do imaginário nas sociedades humanas. Pois, em última análise, são as imagens culturais que constituem a realidade terapêutica e psicológica da alma.

 

 

 

 

Recife, 24 de fevereiro de 2021.

 

 

 

Fontes consultadas

ALENCAR, Kennedy. Trump divulga vídeo com lema da supremacia branca. UOL, São Paulo, 28 jun. 2020 Disponível em: https://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2020/06/28/opiniao-trump-divulga-video-com-lema-da-supremacia-branca.htm. Acesso em: 28 jun. 2020.

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DELUMEAU, J. História do Medo no Ocidente: 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

DIAS, Leo. Padre Manzotti: “Coronavírus não é castigo de Deus, é ação errada do homem”. UOL, São Paulo, 6 maio 2020. Disponível em: https://tvefamosos.uol.com.br/colunas/leo-dias/2020/05/06/padre-manzotti-coronavirus-nao-e-castigo-de-deus-e-acao-errada-do-homem.htm Acesso em: 6 maio 2020.

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FOLLADOR, Kellen Jacobsen. A relação entre a peste negra e os judeus. Revista Vértices, São Paulo, n. 20, p. 25-46, 2016. Disponível em: http://revistas.fflch.usp.br/vertices/article/view/2903. Acesso em: 30 abr. 2020.

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PASTOR diz que coronavírus é castigo divino por casamento gay e aborto. UOL/Universa, São Paulo, 24 mar. 2020b. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/03/24/pastor-dos-eua-diz-que-coronavirus-e-castigo-divino-por-casamento-gay.htm. Acesso em: 24 mar. 2020.  

PEREIRA, Nilton Mullet. A ideia de “fim do mundo”: paralelos entre os medos do mundo medieval e o medo do novo coronavírus. Café História, [s. l.], 4 maio 2020. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/fim-do-mundo-dos-medos-medievais-ao-novo-coronavirus/. Acesso em: 9 maio 2020. 

QUIRICO, Tamara. Peste Negra e escatologia: os efeitos da expectativa da morte sobre a religiosidade do século XIV. Mirabilia: Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval, [s. l.],  n. 14, p. 135-155, jan./jun. 2012. Disponível em https://dialnet.unirioja.es/ejemplar/327549. Acesso em: 10 maio 2020.

UM TEMPO de grande incerteza. Entrevista com o papa Francisco. Instituto Humanitas Unisinos, São Leopoldo-RS, 8 abr. 2020. Disponível em http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/597910-um-tempo-de-grande-incerteza-entrevista-com-o-papa-francisco. Acesso em: 8 abr. 2020.

VEIGA, Igor. Teoria da conspiração afirma que coronavírus foi criado pelo Exército dos EUA. O Tempo, Belo Horizonte, 10 abr. 2020. Disponível em: https://www.otempo.com.br/coronavirus/teoria-da-conspiracao-afirma-que-coronavirus-foi-criado-pelo-exercito-dos-eua-1.2323334. Acesso em: 20 abr. 2020.

 

Como citar este texto

OLIVEIRA, Rosalira dos Santos. Covid-19 e o vírus que parou o mundo: o imaginário das pandemias no Ocidente. In: Pesquisa Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2021. Disponível em:https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/covid-19-e-o-virus-que-parou-o-mundo-o-imaginario-das-pandemias-no-ocidente/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2020.)