O nosso artesanato de cuia é utilitário, é ornamental, tem também nasdanças, o pessoal usa muito a cuia. Então, assim, é um produto natural,vem da cuieira, não tem nada industrial, é tudo manual, ninguém usa máquina pra nada.Nossas máquinas são nossos dedos, nossos estiletes e tudo, é cultural porque a gente cria, a gente não copiou de outro né.É da memória, então se a gente tem memória, a gente tem história.
Reconhecidas por ser o recipiente em que é servido o Tacacá – caldo típico da região amazônica feito à base de tucupi –, as cuias artesanais, feitas a partir do fruto da árvore Crescentia Cujete, ou cuieira, são típicas da região de Santarém, no Pará, notadamente das comunidades das várzeas do rio Amazonas. Utilizadas para diversas finalidades – como taças, fruteiras, copos, potes, baixelas e também para decoração – a sua confecção segue a tecnologia tradicional que envolve cortar ao meio, lixar, tratar, tingir e ornamentar a cuia por meio de pintura ou de incisões.
A produção das cuias, que acontece nos quintais das casas ou debaixo de árvores, é uma atividade econômica eminentemente feminina e coletiva. Talvez seja uma das mais antigas na região do Baixo Amazonas, visto que a pintura das cuias tem registros em relatos de viajantes do século XVII.
Após a coleta da fruta da cuieira, o miolo é retirado – é nessa etapa em que acontece a maior participação masculina. A cuia é fervida, eliminam-se as imperfeições, muitas vezes com escama de pirarucu, e tinge-se com o cumatê, que é uma tinta natural vermelho-escuro, extraída da casca do axuazeiro. Em seguida, em jiraus, ocorre a fixação da tinta: as cuias são colocadas sobre um forro de palha espalhada sobre um local com urina e cinzas, de modo que a tinta, sob a ação da amônia aí liberada, sofre um processo químico e torna-se preta. Depois de lavada, a cuia está pronta para ser decorada.
O repertório tradicional estampado nas cuias, repassado de mães para filhas, reflete paisagens, fauna, flora, lendas e imaginário amazônicos. No caso dos grafismos feitos por meio de incisão são utilizados padrões gráficos chamados de tapajônicos ou indígenas e florais, baseados em arranjos florais da faiança portuguesa.
A região do Aritapera destaca-se na fabricação das cuias. Lá, cinco comunidades – Enseada do Aritapera, Centro do Aritapera, Carapanatuba, Surubiu-Açu e Cabeça-d’Onça – estão organizadas na Associação das Artesãs Ribeirinhas de Santarém (ASARISAN), criada em 2003 com vistas a aprimorar a produção e a comercialização das cuias.
Presente no cotidiano das comunidades, o artesanato típico se tornou ícone da identidade do Pará sendo encontrado tanto em mercados quanto em lojas de souvenires. Em 2009, as cuias pintadas de Santarém tornaram-se Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Estado do Pará por meio da Lei Estadual n. 7.316.
Recife, 19 de maio de 2014.
Fontes consultadas
NOVA Cartografia Social da Amazônia. Arte na cuia: experiência tradicional de saber fazer. Série cultura e resistência no Oeste do Pará. Manaus: UEA Edições, 2013. v. 1.
SOUZA, Antônio Maria de; CARVALHO, Luciana Gonçalves (Org.). Terra, água, mulheres e cuias: Aritapera, Santarém, Pará, Amazônia. Belém: PRODETUR, 2012.
Como citar este texto
MORIM, Júlia. Cuias de Santarém. In: Pesquisa Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2014. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/cuias-de-santarem/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2020.)


