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Cordel Feminino-Representatividade no Acervo da Biblioteca Blanche Knopf-FUNDAJ

“A manutenção da tradição exige a preservação das chamas e não a conservação das cinzas” (NEMER, 2005, p. 11).

Cordel Feminino-Representatividade no Acervo da Biblioteca Blanche Knopf-FUNDAJ

Última atualização: 14/11/2024

Por: Maria Nainam Silvino Araújo dos Santos - Economista, Assessora Técnica

“A manutenção da tradição exige a preservação das chamas e não a conservação das cinzas” (NEMER, 2005, p. 11).

 

A Literatura de Cordel, como é conhecida no Brasil, originou-se na Europa, sendo difundida durante o Renascimento, período em que a impressão dos relatos orais se popularizou. De caráter essencialmente escrito, embora com forte influência da oralidade, sua produção editorial de baixo custo era vendida em feiras, trazendo uma narrativa em verso e linguagem popular.

 

O Cordel se tornou acessível à população da época e, não tardiamente, propagou-se em outras regiões do mundo, onde adquiriu diferentes denominações: na França era conhecido como Litterature de Colportage e Canards; na Inglaterra, como Broadsiddes; e, nas Américas, os Corridos ou Compuestos.

 

Segundo estudiosos e historiadores, o Cordel chegou ao Brasil por intermédio dos portugueses, alcançando sua expressão mais significativa no Nordeste, onde se consolidou como um poderoso veículo para retratar o cotidiano, os sentimentos, as raízes culturais, a identidade regional e, especialmente, o senso crítico, político e histórico do povo nordestino.


Tradicionalmente, a autoria do Cordel era dominada por homens. A presença feminina, não apenas como personagem ou tema dos folhetos, mas como a criadora, escritora, roteirista e editora, surgiu em 1938 com o primeiro folheto de cordel escrito por mulher, a cordelista Maria das Neves Batista Pimentel, intitulado “O Violino do diabo ou O valor da honestidade”. Suas primeiras obras, no entanto, foram publicadas sob o pseudônimo do seu marido, Altino Alagoano. Na velhice, Maria das Neves pôde contemplar seu nome reconhecido na autoria de seus folhetos.

 

Conforme destaca Francisca Pereira dos Santos (2009, p.106), “as mulheres começam a publicar a partir da década de setenta e tornam-se a maior novidade nessa área”. Desde então, a voz feminina ecoou e consolidou sua identidade autoral e seu espaço na Literatura de Cordel. Entre essas vozes, destacam-se as autoras presentes no acervo de cordéis da Biblioteca Blanche Knopf, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

 

A Biblioteca Blanche Knopf possui um acervo extenso e acessível ao público, composto por 5.261 títulos de cordéis. Dentre eles, há três exemplares datados de 1922, os mais antigos do acervo, sendo que a maioria das obras é da década de 1970.

 

Do acervo total, 164 títulos foram escritos por mulheres cordelistas, abordando os mais variados temas, como literatura infantil, gênero, animais, história, religião, catolicismo, personalidades, regionalismo e, claro, a própria mulher. As obras mais antigas dessa coleção datam de 1976: “A Linguagem dos Cantadores”, de Stella Maria Cermeño Mendonça e “A Vida e a Obra de Xico Santeiro, Glória da Nossa Arte Popular”, de Clotilde Santa Cruz Tavares.

 

As vozes femininas no acervo da Fundaj representam 58 autoras. Dentre elas, destacam-se aquelas com maior número de títulos na coleção: Érica Montenegro de Mélo, Rosário Lustosa (Maria do Rosário Lustosa da Cruz), Maria Luciene, Josenir Amorim Alves de Lacerda, Lourdes Nunes Ramalho, Maria José de Oliveira (Mariquinha), Adélia Carvalho, Hélvia Callou (Maria Hélvia Callou), Anilda Figueirêdo, Rivani Nasario, e Zulmira Barbosa dos Santos.

 

 

Recife, 07 de novembro de 2024.

Fontes consultadas

CORSI, Margarida da Silveira; SOUZA, Rafael Zeferino. A escrita feminina na Literatura de Cordel: rompendo barreiras. Revista Práticas de Linguagem, v. 11, n. 1, 2021.

MARINHO, Ana Cristina; PINHEIRO, Hélder. O cordel no cotidiano escolar. São Paulo: Cortez Editora, 2012.

NEMER, Sylvia. A função intertextual do cordel no cinema de Glauber Rocha. 2005. 222 f. Tese (Doutorado em comunicação e cultura) - Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.

SANTOS, Francisca Pereira. Novas cartografias no cordel e na cantoria: desterritorialização de gênero nas poéticas das vozes. 2009. 313f. Tese (Doutorado em Letras) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2009.

SANTOS, Wesllainy; ANJOS, Acassia. A representação feminina na Literatura de Cordel no Século XX-XXI. In: BOZZO, Gabriela Cristina Borborema (org.) Vozes literárias: uma jornada pelos clássicos e contemporâneos. Ponta Grossa: Atena, 2024.

SOUZA, Maria das Dores Melo; MORAES LIMA, Célia Maria Barbosa; PENHA, Gisela Maria de Lima Braga. A literatura de cordel e suas contribuições para o ensino da leitura na sala de aula. Tropos: Comunicação, Sociedade e Cultura, v. 6, n. 2, 2017.

Como citar este texto

SANTOS, Maria Nainam Silvino Araújo dos. Cordel Feminino-Representatividade no Acervo da Biblioteca Blanche Knopf-FUNDAJ. In: PESQUISA Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2024. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/cordel-feminino-representatividade-no-acervo-da-biblioteca-blanche-knopf-fundaj/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 14 nov. 2024.)