Benício Dias e a Moderna Fotografia no Recife
Última atualização: 17/08/2022
Benício Tavares Whatley Dias, ou simplesmente Benício Dias, nasceu no Recife em 8 de novembro de 1914. Filho de Alfredo Whatley Dias, representante de firmas comerciais na capital pernambucana, e de Eglantine Tavares da Cunha Melo, nome de batismo, Benício Dias casou-se com Edla de Sousa Leão com quem teve três filhos: Sérgio Benício, Victória Eugênia e Izabel Cristina. Contraiu um segundo casamento com Maria da Anunciação de Albertin. Suas fotografias pessoais e de família revelam práticas culturais e hábitos próprios a um estilo de vida burguês, urbano e moderno cultivados pelas famílias de posses nas grandes cidades brasileiras na primeira metade do século XX. As imagens evidenciam o gosto pelos esportes do jovem Benício — exemplarmente demonstrado pela proeza de haver realizado a travessia náutica Recife-Bahia com a yole Moema aos 18 anos, junto a Antenor Avelar e José Falcão —, um certo culto ao corpo atlético e o prazer pela vida praiana e pela vivência do ócio ao livre.
Bacharel em Direito e representante comercial, foi enquanto fotógrafo, professor de história da arte, colecionador e comerciante de antiguidades que construiu seu mais importante legado e deixou sua marca na história e na memória brasileiras e pernambucanas. Benício Dias lecionou na Escola de Belas Artes do Recife e na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Recife, e atuou em instituições de memória e preservação do patrimônio cultural entre as décadas de 1930 e 1970, como a Diretoria de Estatística, Propaganda e Turismo - DEPT, depois Diretoria de Documentação e Cultura, vinculada à Prefeitura do Recife, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan. Em breve histórico sobre o Instituto escrito em 1986, seu nome mereceu destaque entre a seleta meia dúzia de fotógrafos elegidos pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa como aqueles que deram notáveis contribuições ao órgão.
Benício Dias começou a fotografar em 1937, segundo entrevista publicada no periódico recifense Folha da Manhã, em 17 de janeiro de 1945. Em 1939, ano de criação da DEPT, seu nome já constava entre os fotógrafos profissionais e amadores que prestavam serviço ao órgão municipal. Eram registros visuais sobre “o velho e o novo Recife”, sobre edifícios, paisagens e cenas urbanas, monumentos e tipos populares, no dizer do então prefeito Antônio de Novaes Filho (1937 - 1945). Ele mais Alexandre Berzin eram considerados responsáveis por produzir a mais extensa documentação sobre o Recife. Além de integrar o acervo em formação na DEPT sobre o passado e o presente da cidade, as fotografias circulavam amplamente em boletins, anuários, periódicos, cartazes, folhetos e noutros materiais e veículos de propaganda e turismo promocionais sobre a capital pernambucana. Deliberadamente ou não, as fotografias contribuíam para a construção, difusão e legitimação de uma imagem e memória sobre o Recife que se pretendia hegemônica, sem com isso eliminar as possibilidades de outras leituras e construções narrativas.
No Primeiro Salão de Arte Fotográfica do Recife, realizado pela DEPT em dezembro de 1944, Benício Dias conquistou o Prêmio Especial Cidade do Recife com a obra “Beco do Marroquim”, confirmando-se como um dos precursores da fotografia moderna ou da arte fotográfica no país. Obteve, também, o Primeiro Prêmio com “Procissão” e Menção Honrosa com as fotografias “Jararaca, mestre embolador” e “Retrato de Dom Geraldo Martins”. O Salão de Arte Fotográfica surgia em meio a um incipiente movimento de busca por renovação estética presente em alguns círculos artísticos e culturais da capital, consolidado, no campo da fotografia, com o Cine-Foto Clube do Recife na década de 1950. A moderna fotografia considerava o fotógrafo como sujeito ativo e determinante no ato de produção da imagem, desconstruindo a noção prevalente no século XIX e começos do século XX de tomar a fotografia como prova de verdade e como reprodução fiel do empiricamente visível.
O período situado entre o final da década de 1930 e a de 1950, que compreende os anos de vigência do Estado Novo no Brasil, apresenta-se como aquele em que Benício Dias produziu sua obra fotográfica mais inspiradora, empática, fecunda e perene. Corresponde também àquele em que exerceu influência no meio artístico e cultural local e se projetou como um dos protagonistas no campo da fotografia. Sensível às grandes questões de seu tempo e espaço, Benício Dias refletia, em sua produção fotográfica, o afã pela busca e afirmação de um caráter nacional ou de uma identidade cultural brasileira que levasse em conta a diversidade regional e as particularidades locais. Este foi um dos mais fecundos veios de sua criação artística conforme percebeu, com acuidade, seu filho, o arquiteto e urbanista Sérgio Benício Whatley Dias. No artigo Benício Whatley Dias: caçador de imagens e memórias, escreveu sobre a obra do pai:
[ele] apontou suas lentes na direção dessa alma brasileira, mostrando os tipos e as manifestações populares; o trabalho do homem do povo; os bonecos de barro e o artesanato nordestinos; os maracatus; as procissões; o labor nas casas de farinha; os pitorescos vendedores ambulantes com seus equipamentos de exposições de produto; as feiras livres das ruas; os estivadores das barcaças do Cais de Santa Rita e os pescadores em suas jangadas. ‘Gravou nos sais de prata’, os mocambos de palha de coqueiro; os tradicionais solares residenciais; a inventividade na arte de edificar em ‘taipa de sopapo’; as faustosas casas-grandes de engenhos e suas capelas; o trabalho no partido de cana, na fabricação do açúcar.
Entre as décadas de 1930 e a de 1950, acelerou-se o processo de modernização, industrialização e urbanização da sociedade brasileira. As cidades procuravam alterar suas configurações espaciais e seus padrões urbanísticos pensando, assim, melhor ajustar-se aos tempos modernos. Grandes reformas físicas, sobretudo nos centros históricos, foram implementadas então, provocando impactos sociais, econômicos e culturais incalculáveis. Imbuído do dever de memória, Benício Dias se pôs a registrar em imagens o drama de uma cidade em transe: o Recife em face a mais uma grande reforma urbanística. Desta feita, o território atingido era o bairro de Santo Antônio prolongando-se para o da Boa Vista, a oeste, e para o bairro do Recife, a leste. A cidade se via mais uma vez envolta em poeira, cercada de escombros, ensurdecida pelo martelar das picaretas manuseadas por trabalhadores braçais quase desnudos. Seguindo o padrão urbanístico e arquitetônico do Movimento Moderno, o Recife deixava-se levar por uma noção de progresso que se construía sobre a destruição das representações físicas do passado, configurado e visível nas ruas estreitas e tortuosas, nos becos e largos das igrejas, nos antigos sobrados e casas térreas de feitio colonial. Interpretação visual da “fieira de desatino” então praticada, segundo palavras do próprio Benício Dias, suas fotografias revelam o espetáculo dantesco de uma sociedade que acreditava, ou queria fazer acreditar, que o futuro viria montado em um automóvel a desfilar por largas avenidas e pontes de concreto armado.
Benício Dias faleceu no Recife em 1976, ano que se seguiu imediatamente à enchente do rio Capibaribe que devastou a cidade. Morador do bairro ribeirinho do Poço da Panela, parte substancial de sua coleção de objetos e livros antigos, de gravuras, pinturas e fotografias foi levada pelas águas ou submergiu na lama. O que escapou ao desastre foi doado pela família ao então Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, atual, Fundação Joaquim Nabuco. No Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira, a Coleção Benício Dias preserva 2.392 registros fotográficos, entre obras de sua autoria e de terceiros por ele colecionadas. Peças de arte popular que lhe pertenceram, como as do ceramistas Porfírio Faustino por ele fotografado em sua oficina de trabalho no município pernambucano de Canhotinho, na década de 1940, também podem ser vistas no Museu do Homem do Nordeste.
Recife, 8 de agosto de 2021.
Fontes consultadas
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Benício Dias: a arte de pintar com a luz. In: MALTA, Albertina Lacerda; ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Benício Dias, fotografias. Recife: Cepe; Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2015. Pp. 7-35.
BARRETO CAMPELLO, Fátima; CORRÊA DE ARAÚJO, Maria de Betânea. Os fotógrafos da DEPT/DDC e a construção da imagem do Recife. In: GUIMARAENS, Ceça (Org). Museografia e arquitetura de museus. Fotografia e memória. Rio de Janeiro: Rio Books, 2016. p. 62-78.
COSTA, Lúcio. Prefácio. In: ANDRADE, Rodrigo M. F. de. Rodrigo e seus tempos. Coletânea de textos sobre arte e letras. Rio de Janeiro: Fundação nacional Pró-Memória, 1986. P. 5- 10.
DIAS, Sérgio Benício Whatley. Benício Whatley Dias: caçador de imagens e memórias. In : MALTA, Albertina Lacerda; ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Benício Dias, fotografias. Recife: Cepe; Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2015.
GUIMARAENS, Cêça. Casa B. Whatley Dias & Cia. In: GUIMARAENS, Cêça (Org.). O fotógrafo Benício Whatley Dias. Rio de Janeiro: Rio Books, 2019. p. 15-47.
SILVA, Fabiana Bruce da. Caminhando numa cidade de luz e sombras: a fotografia moderna no Recife na década de 1950. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 2013.
Como citar este texto
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Benício Dias e a Moderna Fotografia no Recife. In: PESQUISA Escolar. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2021. Disponível em:https:https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/benicio-dias-e-moderna-fotografia-no-recife/. Acesso em: dia mês ano. (Ex.: 6 ago. 2021.)


